Comecei a ler esse livro pela única razão de ser uma obra recém publicada em português da autora Chimamanda Ngozi Adichie. Qual não foi a minha surpresa ao começar o segundo capítulo e perceber que não era uma continuidade… Será que seriam tramas paralelas? Não… Uma nova narrativa começava. Daí descobri que eram contos. E me preparei para uma nova dinâmica.

A leitura de uma coletânea de contos é um pouco diferente. Ler um conto é como mal ser apresentada a alguém e já se despedir. No entanto, em No seu pescoço há uma sensação que permeia toda a experiência e que confere uma continuidade. Algo como uma curiosidade que transita entre a escrita da autora e a novidade que ela inspira. A começar pelo título.

Afinal, o que seria essa expressão tão solta? Me perguntei se a tradução poderia ter causado uma perda de sentido porque No seu pescoço não me remetia à nada… Lego engano.

A verdade é que dois aspectos chamam a atenção nessa coletânea. O primeiro tem a ver com a abordagem inconfundível da Chimamanda em contar histórias que constroem uma perspectiva pessoal, a partir da sua vivência, da sua cultura, do seu mundo. Quem já viu sua palestra do TED, intitulada The danger of a single story, ou, em uma tradução livre, O perigo de uma única história – veja o link aqui – sabe do que eu estou falando. Chimamanda é nigeriana e se descreve como uma contadora de histórias. Ela faz questão de ressaltar o quanto é importante que não nos deixemos levar por versões únicas ou por estereótipos. Ela eleva essa importância à décima potência em suas narrativas. Então, ao ler um de seus livros ou um de seus contos, o leitor deve se desarmar de todos os seus pré-conceitos.

chimamanda

O segundo aspecto está relacionado à sua escrita. Ora narrando em primeira pessoa, ora em terceira pessoa, ela vai arquitetando uma ambientação que facilmente absorve o leitor. Mas é através de um recurso narrativo, usado em dois dos contos, no do título e em Amanhã é tarde demais, que Chimamanda me faz ter certeza que ela consegue seu grande intento: o de colocar o leitor no lugar do personagem e fazer o exercício da empatia, fundamental para que a literatura exerça um papel que vai muito além da sua função. O que ocorre nesses casos é que a narração sugere que você se coloque no papel do personagem.

“Você pensava que todo mundo nos Estados Unidos tinha um carro e uma arma; seus tios, tias e primos pensavam o mesmo. Logo depois de você ganhar a loteria do visto americano, eles lhe disseram: daqui a um mês, você vai ter um carro grande. Logo, uma casa grande. Mas não compre uma arma como aqueles americanos.”

No seu pescoço

 

“Foi o último verão que você passou na Nigéria, o verão antes do divórcio dos seus pais, antes de sua mãe jurar que você nunca mais ia pisar naquele país para ver a família de seu pai, principalmente a vovó.”

Amanhã é tarde demais

Não há escapatória. É mais que sugestivo, é impositivo que você se coloque no lugar do outro. Então, a história muda porque o leitor não está mais de fora, assistindo: ele participa. A empatia é exercida se colocando no lugar da personagem.

Bom, a obra se compõe de 12 contos. De uma forma geral, pode-se dizer que a temática gira em torno da realidade social da Nigéria, muitas vezes desconhecida ou associada a histórias únicas como a própria autora quer desmistificar. Um exemplo que ela menciona, tanto no talk da TED quanto em um dos contos, é a questão da comunicação, algo importante em termos culturais. A Nigéria é um país de colonização inglesa e, embora os distintos grupos étnicos tenham suas línguas específicas, o idioma oficial é o inglês. Ainda assim, as personagens usam certas expressões em igbo.

Outro exemplo bem comum diz respeito à confusão que se faz em relação a generalizar o continente africano em detrimento da nacionalidade nigeriana. Seria a mesma coisa que desconsiderar a diversidade latina, ainda que também tenhamos uma unidade como continente. Chimamanda ilustra esse desconhecimento em algumas trechos.

“Elas perguntaram onde você tinha aprendido inglês, se havia casas de verdade na África e se vocês já tinha visto um carro antes de vir para os Estados Unidos. Olharam boquiabertas para o seu cabelo. Ele fica em pé ou cai quando você solta as tranças? Elas queriam saber.”

No seu pescoço

As personagens vivem em centros urbanos de estados como Lagos ou Enugu. A maioria das protagonistas são mulheres. Seus dramas retratam a cultura através da visão de mundo dessas pessoas e dos seus costumes e influências. Tocam também nas questões mais sensíveis como os valores da sociedade, a religião, a política, os direitos humanos. O leitor tem a oportunidade de aprender sobre a realidade mais recente do país, que está entre os 10 mais populosos do mundo, que tem uma história densa de instabilidade política, de fortes raízes assentadas em crenças africanas mas com um grande número de cristãos e muçulmanos, uma sociedade patriarcal. Desses aspectos vem a luta mais conhecida da autora pela igualdade de direitos independente de gênero, raça, crença, posição social, nacionalidade.

No entanto, há três ingredientes que estão sempre presentes e que me chamam a atenção: a literatura, a educação e a migração. Chimamanda foi estudar nos Estados Unidos com 19 anos. Então ela vai contar histórias de estudantes, escritores, professores e vai, de uma forma ou de outra, mostrar que, ainda que tenhamos nossas raízes, vivemos em um mundo em que nos movemos. É aqui que se explica o título. Quem já viveu a experiência de sair do seu casulo e ter que se adaptar a um novo ambiente sabe muito bem do que se está falando mas quem nunca saiu também pode ter essa ideia. Não quero sugerir a sensação mas eu diria que a autora a descreve muito bem.

No seu pescoço é um conjunto de histórias que se entrelaçam afinal. Não estão isoladas. Ao contrário, fazem parte de um mesmo contexto. Nós, brasileiros, por mais que um oceano nos separe, temos muito em comum com o continente africano e com as vivências tão bem contadas nessas histórias tão reais dos nigerianos. Nem nós nem eles podemos ser entendidos pela perspectiva de uma só história. E é por isso que Chimamanda conta várias. É por isso que seu livro de contos é essencial.

“Todas essas histórias fazem-me quem eu sou. Mas insistir somente nessas histórias negativas é superficializar minha experiência e negligenciar as muitas outras histórias que me formaram. A única história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem um história tornar-se a única história.”

Chimamanda Ngozi Adcichie

 


 

Título Original: THE THING AROUND YOUR NECK

Autor: Chimamanda Ngozi Adichie

Gênero: Contos

Ano: 2009

Título em português: NO SEU PESCOÇO

Editora: Companhia das Letras

Ano edição: 2017

ISBN: 9788535929454

Nr. Páginas: 240

Tradução: Julia Romeu

Capa: Claudia Espínola de Carvalho

Para ver o link do livro na página da Editora Companhia das Letras, clique aqui.

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